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[Relato] Pequim em meio à pandemia do coronavírus

Em agosto de 2019, decidi fazer um mochilão para a Tailândia e para a Indonésia, sem poder sequer imaginar o que estaria por vir. Eu e a minha namorada compramos as passagens e marcamos a data da viagem: 6 de fevereiro de 2020, com retorno para 15 de março. Optamos pelos voos com longas escalas em Pequim, na China, pois dessa maneira conseguiríamos conhecer um pouco de um terceiro país, que nem sequer estava no roteiro. Por que não? Parecia uma ótima ideia. Eis aqui o que aconteceu na nossa pequena aventura:

Preparação

Mesmo no começo do Coronavírus, eu já estava ansioso quanto à viagem. Afinal, aquele seria o início de uma crise global e crescia espantosamente. Entretanto, os casos estavam restritos a China e nosso mochilão se passaria em outros países. Ademais, em janeiro, Pequim tinha 100 infectados, o que não nos pareceu um número alarmante em termos de proporção infectados/densidade populacional, tendo em vista que a cidade tem 21 milhões de habitantes. Sendo assim, tanto eu, quanto a minha namorada, Camila, decidimos prosseguir com a viagem. Não parecia nada de mais.

Antes de continuar o relato, é importante ressaltar que, apesar da quantidade de casos do Covid19 serem/terem sido alarmantes na China, as associações diretas do vírus com o país são inapropriadas e, quando associadas à cultura chinesa, se tornam altamente destrutivas para a sua comunidade, em qualquer parte do mundo. Inclusive no Brasil, já houve casos de agressão verbal, em ambiente público e através de redes sociais, contra asiáticos.

De qualquer maneira, fui tentar comprar máscaras descartáveis para nos proteger nas rotinas de aeroporto. Na época, não havia qualquer caso confirmado no Brasil, porém já não havia estoque de máscaras nas famácias da região da av. Paulista, em São Paulo. Foi indicado por funcionários que eu só poderia obter um pacote em farmácias “de bairro”. Então, foi isso que eu fiz.

A ida

Figura 1 Aeroporto de Pequim, o maior do mundo. Foto: AFP – fonte: G1

Conforme mencionei anteriormente, a viagem de ida foi em 6 de fevereiro. Voamos até Pequim e, de lá, iríamos para Bankok, na Tailândia. A escala duraria 14 horas, logo, havíamos programado ir até a Muralha da China e chegamos a contratar um motorista para nos levar até lá. Contudo, quando chegamos no aeroporto, quase não havia passageiros por lá e apenas algumas pessoas trabalhavam no local.Para completar a estranheza da situação, ao pegar o visto para ir até o monumento milenar, a funcionária nos recomendou ficar no aeroporto. O mesmo ocorreu quando fomos encontrar o motorista. Ele nos alertou que tudo estava fechado e que existiam chances de não podermos ver a Muralha. Esse foi o momento em que desistimos da nossa pequena aventura. Passamos as longas horas sem ter muito o que fazer, apenas com a estranha sensação de estar em uma cidade-fantasma, com um aeroporto-fantasma, quase como se estivéssemos em um filme e ele não era um dos mais bem humorados. Não sabíamos que, na volta, a situação estaria ainda pior.

Figura 2 “Aeroporto-fantasma” de Pequim ao chegarmos, um dos aeroportos mais movimentados do mundo, mas completamente vazio por conta do COVID-19.

A viagem

Ao chegarmos na Tailândia, o Covid19 tinha infectado apenas duas pessoas e não havia caso algum na Indonésia. Até irmos do primeiro para o segundo país, no dia 2 de março, surgiram dois casos em uma região afastada da Indonésia. Todavia, era notável que os pontos turísticos de ambos os países não tinham a quantidade usual de visitantes, tendo em vista que cerca de um quarto dela é formada por chineses. Também observamos que havia um cuidado especial em Bankok para prevenir o contágio, mas nada era muito mais alarmante do que a falta de pessoas nas atrações locais. Ou seja, no geral, o mochilão ocorreu bem e foi uma experiência positiva.

Figura 3 Na foto, o Templo de Prata em Chiang Mai, uma das cidades da Thailândia, e, ao fundo, um dentre quatro homens mascarado.

Era possível notar que os cuidados com o coronavírus eram mais intensos em pontos turísticos, apesar de não ser uma situação alarmante. E se fomos do Brasil para a China, da China para a Tailândia e da Tailândia para a Indonésia, fizemos o caminho oposto para retornar ao Brasil e chegar aqui no dia 15 de março, mais de um mês depois da ida.

A volta

A escala em Pequim de volta foi mais preocupante do que a escala de ida por 4 fatores:

  1. dessa vez, a “estadia” seria mais longa e duraria 18 horas;
  2. alguns voos haviam sido cancelados como forma de contenção de propagação;
  3. houve checagens recorrentes da nossa temperatura;
  4. precisávamos registrar a nossa “origem” a cada compra que fazíamos nas lojas de conveniência.
Figura 4 Ao realizar compras no aeroporto, precisávamos scannear um QR code para preencher nossas informações, uma forma de controlar os clientes que tiveram contato com os estabelecimentos, por conta do COVID-19.

Como voos anteriores foram cancelados, era possível que o nosso fosse também, ao mesmo tempo, isso significou que tinham mais pessoas conosco e inclusive conhecemos outro casal de brasileiros que possibilitaram que as 18 horas transcorressem um pouco melhor. No entanto, era necessário que passássemos em um corredor com duas máquinas gigantescas, duas de cada lado, para que a nossa temperatura fosse aferida. Além disso, quando comprávamos qualquer produto nas lojas do aeroporto, precisávamos preencher um formulário com o nosso nome, o voo, o país de origem e os outros países pelos quais passamos.

No Brasil

Mesmo no voo de Pequim até São Paulo, reparamos que as pessoas estavam diferentes de quando fomos, a situação da qual fomos já não era mais a da qual retornamos. Pessoas limpavam as poltronas e as janelas do avião, ou vestiam capa de chuva e óculos de natação para tentarem se proteger e crianças usavam chapéus com partes de plástico para cobrirem o rosto. A Camila, que tem rinite, espirrava e tinha gente que se afastava dela. Apesar disso, havia outras pessoas que estavam “normais”, usavam roupas comuns e se comportavam de acordo com o cotidiano. No final do dia, tudo isso são meios que cada um encontra de se sentir seguro e confortável diante da crise.

Em nossa parte, organizamos uma quarentena intensificada. Não tivemos contato algum com o “mundo externo” desde que saímos do aeroporto, pois se decidimos realizar a viagem, é nossa responsabilidade arcar com as consequências e tomar todos os cuidados necessários para evitar infectar outras pessoas. Reitero também que se a viagem estivesse marcada para algumas semanas depois da data original, eu a teria adiado. O cenário mudou e ainda vem mudando muito rapidamente. Assim como a quantidade de informações que existe sobre ele vem crescendo, à medida que a ciência compreende melhor o vírus e a doença que ele causa. Assim, meu relato não intenta encorajar alguém a fazer viagens que podem ser adiadas neste momento. Pelo contrário. Escute as recomendações da Organização Mundial da Saúde e fique em casa.

Nos 14 dias de quarentena após a viagem, nos sentimos bem e acredito que não fomos infectados. Porém, os cuidados que tomamos durante essa viagem fantástica devem ser replicados aqui, pois agora é o Brasil que está em uma crescente de infectados e vítimas, enquanto a China conseguiu controlar e estabilizar a pandemia nesse momento.

De maneira geral, posso dizer que fui em direção ao epicentro de uma pandemia para realizar a viagem dos meus sonhos e isso me levou a ter  um “mix de sentimentos”. Na ida, presenciamos a China no auge da pandemia, enquanto, na volta, a nossa preocupação foi o Brasil. E segundo relatos que vi na internet, se a viagem durasse mais uma semana, poderíamos ter tido outra experiência na volta e enfrentar fronteiras fechadas, cancelamentos de voos e isolamento social imposto pelo governo de outros países. Definitivamente, essa foi uma experiência única, em um contexto único. E mesmo com a ambiguidade das minhas impressões e emoções, é, sem dúvida, uma aventura que contarei para o resto da vida.

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