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Oportunidade de ascender: uma visão sobre mulheres na área de tecnologia.

Digamos que você esteja conversando com alguém e, ao ouvir falar de uma empresa de tecnologia, quem você imagina trabalhando nela? A probabilidade maior é de que o personagem que surgiu em sua mente foi um homem de camisa social atrás de um computador. E a verdade é que, realmente, a maioria dos profissionais na área de tecnologia é homens. São inúmeros os motivos para que essa seja a nossa realidade, mas vim aqui tratar sobre a exceção: mulheres no campo dos “nerds” e como esse território é uma oportunidade para nós.

A história do Dia Internacional da Mulher

Apesar de 8 de março ser o Dia Internacional da Mulher, aqui na Niteo, decidimos dedicar o mês todo às mulheres. Ainda assim, acho que devo começar com algumas explicações a respeito da data. Porque, na verdade, nem sempre foi dia 8 ou em março.

A primeira vez que houve um Dia da Mulher foi em maio de 1908 (há quase 112 anos!), nos Estados Unidos, quando 1500 mulheres fizeram uma manifestação sobre igualdade econômica e política. No ano seguinte, a data passou para o dia 28 de fevereiro. O 8 de março só foi oficializado em 1921. E mesmo que o feminismo tenha mudado de forma e as reinvidicações femininas se adaptaram de acordo com seu tempo, não podemos dizer que já chegamos na equidade de gênero. A igualdade econômica, por exemplo, é uma batalha que ainda temos de travar, em qualquer setor que escolhemos atuar.

Ao redor do mundo

Esse é um panorama que se repete em escala global na atualidade e algumas questões particulares do setor de tecnologia fazem com que o ambiente seja dominado por homens. Uma delas, segundo a Harvard Business Review é de que, enquanto 17% dos homens que atuam na área desistam de sua carreira, a porcentagem é maior que o dobro para mulheres, chegando a haver uma desistência de 41%.

Segundo o Fórum Econômico Mundial (FEM), em 2016, 44% das entrevistadas relataram uma falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional e 39% alegaram que há falta de modelos a serem seguidos. O FEM também mostrou que apenas 5% dos CEOs na área de tecnologia de informação são mulheres e a força de trabalho em que as mulheres são mais expressivas na área é a de “equipe”, com apenas 33% de participação.

A liderança feminina

Sobre esse tópico, Sheryl Sandberg, a COO do Facebook, fez um comentário especial na edição citada do FEM: “Liderança é associado com as expectativas masculinas. Nós chamados meninas de ‘mandonas’, mas não fazemos o mesmo com meninos porque já é esperado que eles liderem. Há uma expressão negativa equivalente em todas as línguas de que eu tenho conhecimento. O que acontece então, é que quando as mulheres fazem as coisas que as tornam líderes, nós não gostamos delas, e portanto não as promovemos, não votamos nelas. Os preconceitos de gênero são uma parte crucial do problema.” (Tradução: Rafael Carvalho.)

Nos meus 7 anos de atuação no ramo, tenho visto uma mudança gradual quanto proporções de gênero, o que nos dá um cenário otimista. Para citar exemplos, na multinacional onde estou alocada, vejo mulheres em posições de diretoria e gerência de TI. Porém ainda há um grande progresso a ser feito e que podemos alcançar, principalmente quando trazemos essa questão para o cenário nacional.

No Brasil

É claro que eu poderia apresentar o panorama brasileiro em diversas maneiras, mas, ao mesmo tempo, só posso oferecer a minha perspectiva quanto a ele. Talvez, através da minha história, eu consiga transmitir um pouco do que é ser uma mulher que trabalha em TI.

Entrando em tecnologia

Sempre tive um gosto especial por exatas, mas eu não diria que escolhi trabalhar na área de tecnologia, ela que me escolheu. Mesmo que eu gostasse de mexer em computadores quando mais nova e sempre fui muito curiosa quanto a esse universo, eu não conhecia muitas mulheres nesse setor e não me via como uma dos “nerds” que trabalhavam com isso. A aptidão sempre existiu, mas faltou um incentivo ou uma educação directionada para isso.

Em 2016, apenas 12,3% dos aprovados em Ciências da Computação na Unicamp eram mulheres. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2008 apontaram que 8 em 10 alunas de Tecnologia da Informação desistem do curso no primeiro ano. E, em uma pesquisa feita pelo Serasa Experian em parceria com a ONU Mulheres, apresentada no evento “Por um Planeta 50-50: mulheres e meninas na ciência e tecnologia”, em 2018, apenas 17% de programadores eram mulheres. Essas informações mostram que é difícil de uma mulher entrar nesse ramo e de continuar nele, havendo barreiras em quase todos os níveis da carreira.

Quando me formei do Ensino Médio, optei pela faculdade de turismo. Cheguei a trabalhar como recepcionista bilingue num hotel. Quase como hobbie, resolvi fazer um curso de montagem e manutenção de PCs. Gostei. Fiz outro curso, de redes. Fui conhecendo pessoas, fazendo amizades, adentrando nesse universo até que fui cursar CCNA no SENAI. Depois, tranquei a faculdade de turismo e fui para o curso de computação na federal.

O território masculino

Chegando no meu novo curso, era quase como se aquele mundo não pudesse ser meu, uma mulher negra em meio a um mar de homens brancos ou amarelos. Porém, tive a sorte de entrar em uma turma que oferecia muito suporte. Ela foi a minha vantagem e fundamental para que eu não desistisse do curso.

Claro, uma das maiores vantagens de atuar nesse setor é o salário elevado quando em comparação a outros ramos, contudo, é interessante observar que há uma certa dependência coletiva para aprendizagem, o que leva a uma ótima cooperação entre os profissionais. Hoje em dia, observo isso no decorrer de projetos, pois cada um é especialista em algo e é muito difícil dar conta de tudo. Então um projeto é composto por uma equipe com diferentes pessoas e você está sempre aprendendo.

Ainda assim, não vou mentir, o cenário masculino pode ser intimidador. Principalmente a respeito da comunicação. O mundo masculino se comunica de maneira distinta ao qual o feminino está acostumando. Isso significa relevar, às vezes, o modo que os homens falam ou até responder no mesmo tom. Com o tempo, aprendi a sentar no bar e tomar cerveja com eles. É preciso haver determinada masculinização, ou você acaba por ficar isolada dentro da área. Não é o ideal, contudo é possível e me parece que, com as transformações que vem acontecendo, isso mudará também.

A mudança

Há alguns meses, logo após entrar na Niteo, descobri que estava grávida. Isso me levou a ter uma mudança significativa de perspectiva. Para mim, a história de que “virar mãe muda tudo” foi verdadeira e, de repente, eu tinha novas inseguranças e percepções diferentes do mundo ao meu redor, inclusive sobre o meu trabalho.

A primeira coisa foi a estabilidade da minha carreira. Eu tinha acabado de fazer um mês na empresa e não tinha certeza se eles me manteriam. Foi um alívio descobrir que a Niteo me apoiava e fizemos um acordo quanto a situação. O que acaba entrando no tópico principal dessa seção: A estrutura à maternidade que pode ser oferecida na área de TI.

Essa é uma questão extremamente particular ao universo feminino e, como regra geral, a gestante ou a mãe são inferiorizadas em suas carreiras. Porém, uma das vantagens desse setor que notei foi o homeoffice. Pois é uma comodidade maior em termos de tempo de transporte e o próprio bem estar da mulher (entendo agora que ter um bebê dentro de você exige muito de seu corpo). Além disso, quando as responsabilidades da maternidade aparecerem (por exemplo, ir pegar o meu filho na escola), elas poderão ser executadas e ainda poderei lidar com emergências do trabalho. Sendo assim, equilibrar a vida como mãe e como profissional será mais fácil, podendo desempenhar o papel materno e manter a minha produtividade.

O lado pessoal vs. o profissional

A tese de equilíbrio entre vida pessoal (especificamente sobre “ser mãe”) e profissional é uma preocupação que grande parte das mulheres têm. Como vemos no gráfico abaixo, mesmo que uma boa parcela de pessoas já entenda que não é uma escolha entre uma ou outra alternativa, porcentagem significativa não tem essa compreensão por completo (apenas 50,5% dos homens discordam totalmente e 60,6% das mulheres). Talvez então não seja necessário que façamos tal escolha e o que de fato precisa ser mudado é as definições de co-parentalidade, é dividir responsabilidades entre ambos os pais.

Figura 1: Gráfico apresentado pela pesquisa do projeto “Eles por elas” (2016) a respeito do grau de concordância com a afirmação “Mulheres deveriam decidir se a prioridade na vida delas é a carreira ou os filhos.”

Possibilidades de futuro

Conforme repeti ao longo do texto, observo uma transformação em direção a equiparidade de gênero no campo da tecnologia. Ainda assim, o que podemos fazer para acelerá-la? Todos os dias nascem mais e mais crianças cujo potencial pode ser explorado. Eu sei que incentivarei meu filho a trabalhar com TI e já tento incentivar aqueles ao meu redor, porque é uma área que tem vagas e cuja remuneração é satisfatória.

Incentivo é algo crucial nesse meio. Eu mesma gostaria de ter sido incentivada mais cedo, pois teria começado mais cedo também. Em um artigo do projeto “Progra{m}aria”, são dois pontos levantados que acontecem durante o nosso processo de desenvolvimento para a área seja dominada por homens: quais brinquedos nos dão e a naturalização de esteriótipos. No primeiro, ocorre um acesso facilitado de computadores (com video games, por exemplo) para garotos e, no segundo, acredita-se que a falta de afinidade com exatas e ciências seja inerente a garotas. Por sorte, fui a exceção. Então, é preciso que haja um incentivo maior para ingressar no mundo da tecnologia, em especial para meninas e mulheres, que não obtêm tal estímulo de outras maneiras ao longo da vida.

A oportunidade

E é possível ir além do incentivo ao oferecer uma educação adequada no ambiente tecnológico. Combinando essas duas coisas (incentivo e educação), criam-se oportunidades para que mulheres atuem na área mais crucial do século XXI. Um exemplo da magnitude do potencial feminino no setor é as alunas do projeto “Kode with Klossy”.

A iniciativa consiste em um curso intensivo de programação com duração de duas semanas oferecido gratuitamente para meninas de 13 à 18 anos em diferentes cidades nos Estados Unidos. As estatísticas do programa mostram que apenas 20% das garotas têm alguma expeciência com ciência computacional antes de participarem do curso e 90% desejam seguir carreira na área após as duas semanas.

Em um artigo da Forbes, é citada Sowmya Patapati, uma das antigas estudantes do Kode with Klossy. Aos 16 anos, ela liderou um grupo com outras 3 garotas e ganhou o Disrupt NY Hackaton em maio de 2017, levando um prêmio de 5 mil dólares. As meninas competiam com mais de 750 outras pessoas e projetaram um aplicativo de realidade virtual que ajuda a diagnosticar e tratar o Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade.

No The New York Times, há o relato de Valeria Torres-Olivares, 18, que não só foi aceita na Universidade de Princeton para cursar Ciência Computacional, mas também começou um curso de programação na Biblioteca Pública de Princeton com sua irmã mais nova, Kyara, 14. Ambas são ex-alunas dos Kode with Klossy. Ademais, é mencionado o caso de Hope Dunner, 19, que completou um estágio em Ciência Computacional na Microsoft.

Outros projetos:

Fora o “Kode with Klossy”, existem projetos similares como o “Girls Who Code” e, aqui no Brasil, alguns exemplos são o já posto “Progra{m}aria” e o “Programa Meninas Digitais”. Igualmente, é possível encontrar cursos para garotas de programação dentro de projetos maiores como no caso do sul do Brasil, com o “Irmãs dos Pobres – Instituto Palazzolo”. Seja como for, o importante é saber que existem mulheres na tecnologia e nós podemos crescer.


Referências bibliográficas:

ADAMS, Susan. “Model Karlie Kloss Sees Big Growth For Her Coding Camp For Teen Girls” Acesso em 12 de março de 2020;

CARVALHO, Rafael. “O que foi falado sobre liderança feminina no Fórum Econômico Mundial” Acesso em 13 de março de 2020.;

FRASABASILE, Daniela. “Apenas 17% dos programadores brasileiros são mulheres” Acesso em 12 de março de 2020;

HE FOR SHE. “Relatório final quantitativo – pesquisa Eles por Elas (2016).” Acesso em 16 de março de 2020;

NADAL, Paula. “Por que 8 de março é o Dia Internacional da Mulher?” Acesso em 13 de março de 2020;

PINHO, Ana. “Infográfico interativo mostra a realidade das mulheres no mundo do trabalho” Acesso em 12 de março de 2020;

PROGRA{M}ARIA e CA TECHNOLOGIES. “Porque o machismo cria barreiras para as mulheres na tecnologia” Acesso em 12 de março de 2020;

ROBEHMED, Natalie. “Karlie Kloss, Coding’s Supermodel: The Forbes Cover Story” Acesso em 12 de março de 2020;

TELL, Caroline. “Karlie Kloss Teaches Teenage Girls How to Code” Acesso em 12 de março de 2020.

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