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O mundo após o coronavírus

O último artigo do blog do Bill Gates começa com: “Uma das questões que mais me perguntam esses dias é ‘quando o mundo será capaz de retornar ao modo de como as coisas eram em Dezembro, antes da pandemia do coronavírus?’” (em tradução livre). Obviamente, não sou o Bill Gates e ninguém me pergunta nada, mas será que, no lugar de “quando o mundo retornará ao que era”, não deveríamos nos perguntar “se o mundo retornará ao que era”?

No caso, o texto de Gates discute o processo de criação e disponibilização de vacinas contra o COVID19, então entendo que o dilema do post seja “quando será possível encerrar a quarentena sem grandes consequências?”, entretanto isso me fez pensar se algum dia voltaremos ao “normal”. Redefiniremos o “normal”? Quais lições serão aprendidas? A memória da pandemia será rapidamente esquecida como tantos outros ensinamentos históricos que perdemos?

O mundo todo em quarentena

Ao abrir qualquer site de notícias, as primeiras manchetes são a respeito do coronavírus e todas as redes sociais são inundadas com comentários, respostas ou memes da pandemia. De repente, tenho uma estranha conexão com bilhões de pessoas, tão confinadas quanto eu. E, não vou mentir, não sou boa para entender a universalidade das coisas e tendo a me concentrar com a particularidade da vida cotidiana. Sendo assim, acho ainda mais curioso me conectar com a impressão coletiva sobre a quarentena.

Contudo, a verdade é que não estamos tendo a mesma experiência. A prova disso é que a quarentena deixou claro que existe um grupo fundamental de pessoas para que possamos viver e, a esse grupo, não se é permitido “tirar uns dias”, nem em tempos de pandemia. Não só aqueles que desempenham serviços essenciais, mas também a parte da população que não tem o luxo de conseguir ficar em casa e a luta não é contra o vírus e, sim, contra a fome.

O mundo todo?

Portanto, não acho justo escrever um texto inteiro fingindo que esses parágrafos servirão para todo mundo e ignorar aqueles que não podem parar e ficar matutando em minhas palavras. De todos os alarmes que a doença disparou, um dos mais importantes é a conscientização da disparidade socioeconômica.

Apesar de estarmos todos sob risco de contrair COVID, para milhões de pessoas, as preocupações são outras e, neste exato momento, elas dependem da solidariedade para conseguirem sobreviver. A desigualdade é inerente a História do país, independente da existência da pandemia, e é por isso que, honestamente, espero que isso não seja esquecido. A realidade para essas pessoas é sempre distinta das demais camadas populacionais.


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O tempo e o espaço

Inclusive, tocando no tópico “realidade”, a crise do coronavírus também mostrou o quão abstrata é a nossa realidade ao modificar a nossa percepção de tempo e espaço (o que parecia ser inerente às verdades fundamentais do mundo). O segundo conceito é fácil de entender como fomos afetados, pois o isolamento reduziu nossos limites geográficos de maneira óbvia e inscontestável, porém, o primeiro parece ser mais difícil de compreender e de lidar.

Porque o nosso cotidiano funciona a partir de uma estrutura imposta. Seja por conta do horário comercial, letivo, ou o que for, regras são estabelecidas e a vida as segue sem grandes contestações. Porém, como lidar quando essas amarras são afrouxadas? Você tem a disciplina ou a vontade de seguir nesses mesmos parâmetros?

Em diversos filmes e livros, a moral da história é: o tempo é o bem mais precioso que temos. Deve ser. E que esquisito que é poder manejá-lo como nós bem entendemos, não? Mesmo que você não tenha ativamente refletido a respeito disso, você distribuiu o seu dia de acordo com suas prioridades. O que você priorizou? O que você escolheu fazer nas horas em que, no lugar de ficar preso no trânsito, estava em casa? E o que isso diz sobre o que você quer, de fato, na sua vida?

A introspecção do agora

Tais perguntas me levam a refletir e a ponderar. Na verdade, acho que a quarentena nos isolou tanto que somos obrigados até a passar mais tempo com nós mesmos, perdidos e fixados em nossos pensamentos. O que pode nos levar a insights produtivos e aprofundado autoconhecimento ou a lugares sombrios, determinados por estresses e ansiedades da crise.

Um dos maiores desafios está sendo manter uma boa saúde mental, encontrar o equilíbrio em sua cachola quando nada mais está equilibrado. A falta de controle sobre a situação é estressante em um novo patamar e ceder quanto ao caos nunca foi um grande princípio desse século que estamos vivendo. Com sorte, uma das coisas que poderemos segurar da pandemia é o cuidado. Cuidar de nós mesmos e cuidar de quem gostaríamos de sair para ver e abraçar agora.

Tá, mas e o depois?

Abordei muitos tópicos até aqui e apresentei diversas incertezas. Em menos de duas páginas, ousei questionar o tempo e o espaço como os conhecemos. Que audácia. E nada de responder sobre o mundo. Como ele será? Lá no começo, mudei a questão de “quando o mundo voltará ao normal” para “se ele voltará ao normal”, e agora mudarei outra vez minha pergunta central. Quem seremos após tudo isso? Quem escolheremos ser? Acho que só tempo dirá.

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11 Comentários. Deixe novo

  • Cristian Douglas Sales Garcia
    05/15/2020 8:49 pm

    Adorei o texto! Muito boa reflexão. Parabéns.

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  • Mariana Maria
    05/15/2020 9:08 pm

    Ótimo texto! Levantou questões extremamente importantes para momentos como este. Muito bom!

    Responder
  • Marcelita Vilela
    05/15/2020 9:15 pm

    Parabéns, Sabrina! Ótimo texto, ótima reflexão! Tempo para muitos pensamentos, inclusive! Forte abraço

    Responder
  • Charlie Gomes
    05/16/2020 2:03 am

    texto muito incrível! me fez pensar em outras perspectivas sobre o futuro pós pandemia!!

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  • Texto … reflexões bem de encontro aos meus questionamentos. Concordo e me pergunto… quem escolherei ser? Tenho quase uma resposta que o tempo há de confirmar. Com certeza não serei mais a mesma.

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  • Ótima reflexão…..fomos pegos de surpresa em tantos aspectos….é momento de pensar em nós, no coletivo, num novo futuro….obrigada por organizar essa reflexão em palavras !

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  • Ana Maria
    05/16/2020 5:46 pm

    Sabrina adorei seu texto.
    Ótimas reflexões.
    Questionamentos.
    Sinto muito orgulho de te la tido como aluna em NOSSA TERRA AZUL.
    Como todo mundo estamos sofrendo as conseqüências deste momento.
    Mas esperamos passar por tudo e sairmos melhores que antes.

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  • Ótima reflexão.
    Mas acredito que o mundo não não voltará a ser o mesmo, cada crise dessa passamos por uma renovação que nem todos são capazes de entender, aprender ou enxergar.

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  • Amei!!!! Conseguiu retratar o momento que estamos vivendo e nos fazer refletir!!! Você é sensacional!!

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  • “A memória da pandemia será rapidamente esquecida como tantos outros ensinamentos históricos que perdemos?” Uma boa pergunta é aquela que já traz em seu cerne a resposta, como dizia um autor de quem gosto muito… Excelente texto Sabrina Mori

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  • Erica Mori
    05/18/2020 12:57 am

    Ótimos e fundamentais questionamentos!

    Defina sua(s) prioridade(s) e o seu eu emergirá.. sem amarras, sem ego..
    Somente luz.
    É tempo de mudar.

    Responder

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